O que se vê quando se mira ao espelho?
O que se vê além da imagem que se enxerga ao espelho?
Seria eu um corpo? Uma veste?
Ou estaria eu em um corpo? Em uma veste?
Se não sou eu um corpo, uma veste
Sou eu algo que os precede
Sou eu algo que a existência excede
Pois que Eu sou além do tempo
E serei Eu também além da veste
Se Eu sou além do tempo
E já o era antes do corpo que me veste
Por que tanto apego aquilo que parece?
O Eu que sou não deveria nutrir-se daquilo que não
perece?
Veja que se habita um corpo, uma veste
Habita-se uma casa, mas a casa não se é
Encontro-me aqui num campo de tarefa terrestre
Eu não sou a tarefa, mas a tarefa me cabe e me compete
Temos planos enquanto num corpo, numa veste
Almejamos tantos e ora eles sucedem
Mas a quem ou ao que em verdade eles servem?
São para o Eu que sou além do tempo e além da veste?
Ou são um engodo, que não preenche, só parece?
Como um véu que cai, a verdade transparece
Eu, além do corpo, além da veste
Não posso ser feliz ingerindo o que parece
Pois em vazio e amargura a vida se excede
Ainda que por breves momentos
Pareça eu “feliz” pelo gosto forte que entorpece
Gosto forte de uma fuga que fenece
O Eu que sou, que um dia despoja a veste
Vê fomentada a felicidade no tesouro que não perece
Onde está meu coração?
Não estaria lá também o tesouro que não perece?

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